
Até meados do primeiro semestre deste ano, não havia problemas no pagamento. A remuneração dos plantões dos médicos que atuam no Hospital Professor Eládio Lasserre, em Cajazeiras, costumava vir sempre após o mês seguinte. No entanto, desde maio, os intervalos foram ficando maiores até chegar à situação atual: até o fim de outubro, o último pagamento recebido era referente aos plantões de julho.
A situação no Eládio, que é administrado pelo Instituto Fernando Filgueiras (IFF) ocorre em meio a relatos de atraso de pagamentos em outras unidades de saúde. Na última terça-feira (27), o CORREIO mostrou que médicos do Hospital 2 de Julho, também em Salvador, não recebiam desde julho. A unidade é administrada pela terceirizada Fabamed.
Uma médica ouvido pela reportagem contou que a situação no Eládio Lasserre têm comprometido o planejamento financeiro dos profissionais e levantado preocupações sobre a assistência prestada aos pacientes. A médica, que trabalha na emergência do hospital, relata que os pagamentos costumavam ser realizados regularmente no mês seguinte ao da prestação do serviço. Foi a partir de maio, porém, que os prazos começaram a se estender, até chegar ao cenário atual, com meses de remuneração pendentes.
O pagamento referente a julho só foi feito na penúltima semana de setembro. Desde então, a médica afirma que não recebeu os valores relativos a agosto, setembro e outubro. “Isso é muito ruim porque a gente não consegue se planejar. A gente está lá, a gente cumpre o nosso compromisso. Dá os plantões e espera receber para pagar nossas contas. Não poder se organizar prejudica muito a gente”.
De acordo com ela, os profissionais procuram a coordenação, a diretoria e o setor financeiro para cobrar os valores em atraso. A resposta recebida, contudo, é que os pagamentos não foram realizados porque os responsáveis pela gestão do hospital ainda não receberam os repasses necessários.
Insegurança
O trabalho no Eládio Lasserre é a principal fonte de renda atualmente da médica, que conta que o atraso tem afetado diretamente sua organização financeira. Segundo a profissional, a necessidade de manter as despesas em dia, incluindo impostos e contas pessoais, tem se tornado um desafio.
“Tem algumas contas que eu tive que escolher quais pagar. Porque três meses, você até tem uma reserva financeira. Mas a reserva acaba, porque são três meses de espera. A gente acaba ficando desorganizada por algo que não consegue controlar", desabafa.
Os plantões médicos na unidade são contratados por meio de pessoa jurídica (PJ), enquanto a organização das escalas pode variar a depender da disponibilidade dos profissionais e os acordos estabelecidos com a coordenação. Um plantão de 12 horas nos dias úteis pode valer R$ 1.440, enquanto o valor aos fins de semana é de R$ 1.550.
Neste contexto, porém, já é possível notar mudanças na ocupação das escalas. Até alguns meses atrás, os plantões disponíveis eram disputados e costumavam ser preenchidos rapidamente. Agora, há vagas que permanecem abertas. A médica avalia que a incerteza sobre quando os pagamentos serão realizados pode estar afastando profissionais.
Além disso, a falta de um colega em determinado turno resulta em sobrecarga para quem permanece no atendimento. “Acontece também de a gente chegar no plantão no final de semana e ter pacientes que procuraram serviço durante a semana e não tinha um profissional, por conta desses furos na escala. Então, é algo que preocupa, sim”.
Na unidade, há médicos nas especialidades de clínica, cirurgia geral e ortopedia na emergência, além de profissionais responsáveis pelo acompanhamento dos pacientes internados.
Apesar das dificuldades, ela continua no hospital por ter desenvolvido uma relação de confiança e afinidade com o local. No entanto, a médica admite que pode deixar a unidade caso os atrasos continuem. Há, ainda, um desgaste provocado pelas cobranças frequentes. “Ficar cobrando todo dia é chato, é estressante. E causa insegurança. Então, diante de tudo isso, eu pensaria em sair, sim, caso não melhore”, diz.
O IFF foi procurado por meio do telefone que consta no site da empresa, mas não houve resposta. A Secretaria da Saúde do Estado também foi procurada. O espaço segue aberto para manifestação.