Camaçarí / BA - 16 de Setembro de 2026
Publicado em 15/09/2026 14h13

Bahia perde força e vê economia crescer abaixo da média nacional

Série do IBGE mostra alta acumulada de 24,7% entre 2007 e 2023, contra 35,8% no país; números impactam na capacidade de gerar novos empregos, atrair investimentos e ampliar a renda das famílias
Por: Correio 24h/TV Revista

Após crescer acima do Brasil e do Nordeste no início dos anos 2000, a Bahia desacelerou  e reduziu sua participação na economia regional

 

A Bahia entrou em um prolongado ciclo de perda de dinamismo econômico a partir de 2007, justamente quando o Partido dos Trabalhadores assumiu o comando do estado, com a primeira gestão de Jaques Wagner. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, após crescer acima das médias nacional e nordestina entre 2003 e 2006, o estado perdeu fôlego e encerrou os 17 anos seguintes, até 2023, com o menor crescimento acumulado entre os estados brasileiros. 

Os números revelam uma mudança expressiva de trajetória. Entre 2003 e 2006, período em que o estado foi governador por Paulo Souto e imediatamente anterior à chegada do PT ao Palácio de Ondina, o Produto Interno Bruto (PIB) baiano avançou 20,1%. Já entre 2007 e 2023, abrangendo os governos de Jaques Wagner e Rui Costa e o primeiro ano da gestão de Jerônimo Rodrigues, todos do PT, o crescimento acumulado foi de apenas 24,7%. 

Na prática, a economia da Bahia precisou de 17 anos para crescer praticamente o mesmo que havia avançado nos quatro anos anteriores. A comparação até o ano de 2023 ocorre com base nos dados mais recentes disponibilizados pelo IBGE sobre o PIB nos estados. 

O desempenho também colocou o estado muito abaixo dos principais parâmetros de comparação. Enquanto a Bahia cresceu 24,7% entre 2007 e 2023, o PIB brasileiro avançou 35,8%. Isso significa que, no período, o Brasil cresceu cerca de 53% mais que a Bahia.

Bolso dos baianos

Por trás dos percentuais do PIB, a perda de dinamismo da economia tem consequências que chegam diretamente à vida da população. Quando um estado cresce menos durante um período tão prolongado, o efeito tende a aparecer na capacidade de gerar novos empregos, ampliar a renda das famílias, criar oportunidades para os jovens e atrair empresas e investimentos.

Para o CEO da Ônix Capital, Vinicius Assis, a Bahia também enfrenta dificuldades para transformar seu peso econômico em renda para a população. “A gente continua sendo uma potência pelo tamanho e diversidade, mas o PIB per capita decepciona e a gente tem um desafio muito grande de transformar essa riqueza em renda”, explica o economista.

De acordo com o especialista, os impactos pesam mais para os “jovens, mulheres, população negra, que é majoritária, e também moradores do interior”. “(O cenário de desaceleração acaba causando) uma menor geração de empregos formais, consequentemente, menos proteção, tanto para o empregado quanto para o empresário. Então, isso gera uma relação muito difícil. Os salários não crescem da mesma forma que deveriam, crescem de forma lenta e o trabalhador migra para a informalidade”, acrescentou.

Os reflexos também alcançam os municípios. A chegada de uma indústria, de um grande empreendimento ou de uma nova cadeia produtiva não representa apenas o investimento realizado pela empresa. Em torno desses projetos surgem fornecedores, prestadores de serviços, restaurantes, comércio, transporte e uma série de atividades que movimentam a economia local, geram postos de trabalho e aumentam a circulação de renda.

Quando a Bahia cresce abaixo do Brasil e do próprio Nordeste durante sucessivos anos, a diferença representa a riqueza que deixou de ser produzida, negócios que poderiam ter sido criados e oportunidades de emprego e renda que poderiam ter chegado à população. É justamente esse caráter cumulativo que ajuda a dimensionar o impacto de 17 anos de crescimento econômico abaixo dos principais referenciais do país.

Antes do ciclo petista

Entre 2003 e 2006, o PIB baiano cresceu a uma média anual de 4,7%, acumulando expansão de 20,1%. O resultado superou tanto o Nordeste, que avançou 17,7%, quanto o Brasil, com crescimento de 14,8%.

À época, a economia baiana ainda colhia os resultados de investimentos estruturantes realizados nos anos anteriores, entre eles a implantação do Polo Automobilístico da Ford, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, além da consolidação do Polo Petroquímico, da expansão das atividades agroindustriais no Oeste e do fortalecimento da indústria de transformação.

A mudança de trajetória aparece a partir de 2007, primeiro ano do governo Jaques Wagner. Entre 2007 e 2010, a Bahia ainda apresentou crescimento de 16,6%, mas já passou a ficar para trás: o Nordeste avançou 18,8% e o Brasil, 19,7%.

No segundo mandato de Wagner, a distância aumentou. Entre 2011 e 2014, a economia baiana cresceu somente 8,9%, abaixo dos 13,6% registrados pelo Nordeste e também inferior aos 9,7% do país.

Piora na recessão

A deterioração ficou ainda mais evidente entre 2015 e 2018, já no governo Rui Costa. Em meio à recessão que atingiu o país, o PIB baiano acumulou retração de 7,3%.

Embora a crise tenha sido nacional, a Bahia sofreu mais. No mesmo período, a economia brasileira recuou 3,8%, enquanto o Nordeste encolheu 4,5%. A queda baiana, portanto, foi significativamente superior às retrações nacional e regional.

O comportamento voltou a se repetir durante a pandemia. Em 2020, o PIB da Bahia caiu 4,4%, diante de uma retração de 4,1% no Nordeste e de 3,3% no Brasil.

A economia voltou a crescer nos anos seguintes, mas a recuperação não foi suficiente para reverter a perda relativa. No quadriênio entre 2019 e 2022, correspondente ao segundo mandato de Rui Costa, a Bahia acumulou crescimento de apenas 3,5%. Mais uma vez, ficou atrás do Nordeste, com 4,8%, e do Brasil, com 5,7%.

Perda de espaço

A perda de fôlego também aparece na participação baiana dentro da própria economia nordestina. Maior economia da região, a Bahia respondia por aproximadamente 30,6% do PIB do Nordeste no primeiro quadriênio analisado (2003-2006). Entre 2007 e 2023, essa fatia havia recuado para cerca de 28,5%. A queda foi superior a 2,1%. pontos percentuais.

Ao longo dos governos do PT na Bahia, o estado teve a maior perda de participação no PIB do Nordeste. O recuo foi de 2,4%. Ou seja: embora tenha preservado a liderança regional em tamanho absoluto, a Bahia perdeu participação relativa enquanto outros estados nordestinos avançaram em ritmo mais acelerado.

“Piauí, Maranhão, Paraíba, Ceará, por exemplo, receberam muitos investimentos agrícolas, industriais, logísticos e principalmente serviços, que é o motor aqui do Nordeste. Infelizmente, a Bahia também teve o fechamento da Ford, a partir de 2021. Então, a gente tem um predomínio de serviços tradicionais, que não geram tanta produtividade e tem uma concentração gigante na cidade de Salvador e Região Metropolitana. Então, sim, crescemos menos, mas não significa que estamos tão mal, comparado aos outros estados, mas a gente precisa reverter alguns cenários aqui pra poder conseguir voltar a crescer no mesmo patamar da região”, explicou Vinicius.

Sem grandes investimentos

A desaceleração também coincide com uma lacuna na implantação de grandes empreendimentos capazes de transformar estruturalmente a economia estadual. Historicamente, alguns dos principais ciclos de desenvolvimento da Bahia foram impulsionados por projetos de grande escala, como o Centro Industrial de Aratu, o Polo Petroquímico de Camaçari, o Polo de Celulose do Extremo Sul e, posteriormente, o complexo automotivo da Ford.

Instalada em Camaçari no início dos anos 2000, a Ford encerrou sua produção na Bahia duas décadas depois, provocando um forte impacto sobre a cadeia automotiva e deixando uma lacuna industrial que somente agora começa a ser parcialmente preenchida com a implantação da fábrica da chinesa BYD.

Assim, duas décadas depois da chegada do PT ao governo estadual, a Bahia continua sendo a maior economia do Nordeste, mas os números mostram que perdeu terreno. O estado que começou a série crescendo acima do Brasil e da região passou, a partir de 2007, a avançar abaixo dos dois referenciais e encerrou o período analisado na última posição nacional em crescimento acumulado.

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